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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

MIB: um novo rótulo para a música inteligente brasileira?

Por LAÉRCIO CORRENTINA (Compositor e filósofo)


A música brasileira tem sofrido uma perda irreparável, ao longo dos últimos anos (talvez ao longo dos últimos 20 anos), nos seus conteúdos harmônico, melódico, rítmico e, sobretudo, literário e filosófico. Essa música, quando (e talvez ainda seja) concebida com todos esses pressupostos, era considerada um dos maiores produtos de exportação do Brasil, pois todos os grandes compositores estrangeiros e brasileiros, sem nenhum constrangimento, eram unânimes em afirmar que a nossa música tinha todos os elementos da 'grande música universal', sendo, portanto, riquíssima, exatamente sob o ponto de vista dos pressupostos citados: harmonia, melodia, rítmo e conteúdo literário e filosófico. Estes, segundo os grandes críticos de música ao redor do globo terrestre, dificilmente poderiam ser encontrados - de forma tão simbioticamente artística - em qualquer música pelo resto do mundo.

Atualmente, entretanto, todos esses "ingredientes" têm sido vilipendiados e escornados pela 'indústria fonográfica', em função de propósitos culturais, econômicos e políticos globalizantes. Diante desses objetivos, a 'indústria fonográfica brasileira', que é inerente à 'indústria cultural globalizada', tem a atribuição de designar os ditames estéticos da música que deve ser produzida e difundida por todo o Brasil; sendo tais ditames, necessariamente, portadores de uma ideologia conectada àqueles propósitos. Em consequência de toda esse conluio, a música brasileira tem perdido a sua 'aura artística', algo que não seria nada culturalmente, economicamente e politicamente correto para os fins dessa indústria. Sendo assim, aqueles elementos da nossa música foram integralmente ignorados pela mídia radiofônica e televisiva brasileira, a 'indústria cultural'.

Depois de tudo isso, a música que tem sido produzida no Brasil hoje, e difundida pelos meios de comunicação de massa - e o pior, não expressando nenhuma daquelas bases citadas - reivindica para si (por razões de conveniência marketeira) o rótulo de MPB. Rótulo esse que em tempos remotos compreendia a expressão de uma música absolutamente inteligente e criativa que se produzia no Brasil, em que alguns dos seus maiores representantes eram Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Ivan Lins, Sá & Guarabyra, Tom Jobim, Toninho Horta, João Gilberto, Edu Lobo, dentre outros.

Penso que seria muito mais adequado a essa música comercial e desprovida de qualquer atributo artístico, o rótulo de "popularesca", pois o termo "popular", como fora empregado em tempos áureos da cultura brasileira, simbolizava uma música pruduzida espontaneamente pela inteligência e sensibilidade criativas do compositor brasileiro. Era a expressão da mais autêntica subjetividade artística brasileira. E agora perguntamos: cadê tudo aquilo que "era" expresso pela nossa música? Os compositores brasileiros não têm produzido mais nada? E, às vezes, alguns desavisados são até capazes de afirmar: "aquela MPB morreu"; ou "nós estamos vivendo uma época de modernidade na música, o que não admite tendências estéticas muito introspectivas ou críticas". Ou ainda aquelas falácias do tipo: "a MPB tradicional é muito conservadora e não admite novas tendências estéticas". Puro 'senso comum'! E eu interrogo: oh, deuses da música, onde vamos parar por tanta modernidade?! Em razão de tudo isso, é que sugiro que criemos uma nova legenda, que expresse toda a criatividade sensível, perceptiva e artística da nossa música. Enfim, uma legenda que possa ser considerada, autenticamente, a expressão de uma música inteligente brasileira; sendo essa música, ao mesmo tempo, independente de quaisquer amarras, a fim de tentarmos dissipar tanto engano e subserviência. Sugiro que criemos então a MIB: Música Inteligente Brasileira.

Um abraço para os corações estetas! 
 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Uma análise ética na perspectiva da Moral Luck

Por Walner Mamede Jr.


Debate realizado por e-mail com Júlio Cézar Ramos Esteves, Doutor em Filosofia pela UFRJ, Pós-Doutor pela Michigan State University, Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF, membro do corpo editorial dos periódicos Cadernos de Filosofia Alemã,Studia Kantiana e Crítica e autor de livros e diversos artigos nas áreas de Ética, Filosofia Política e Epistemologia.
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O conceito de Moral Luck, introduzido por Bernard Williams e desenvolvido por ele e Thomas Nagel em seus ensaios, descreve as circunstâncias em que a um agente moral é atribuída a culpa ou o mérito por uma ação ou por suas conseqüências, embora o referido agente não tenha controle total sobre a ação ou seus resultados.  Neste debate, o Professor Júlio Esteves responde às questões propostas por mim, lançando mão deste conceito à luz dos escritos de Kant. A questão posta a partir dos casos abaixo motivou o debate:
  • Caso 1: Motorista não faz revisão dos freios e, por isso, mata criança atropelada.
  • Caso 2: Motorista faz revisão nos freios e evita atropelamento
  • Caso 3: Motorista faz revisão nos freios e não evita atropelamento, matando a criança.
  • Pergunta-se: Quem é uma pessoa melhor dentre os 3 motoristas?

Walner Mamede: Ao considerarmos os exemplos dos motoristas citados tanto pelo senhor quanto por Nagel, o que deveria ser avaliado não seria a existência ou não da intenção de atropelamento (boa ou má vontade)? A negligência ou não com o freio não implica, necessariamente, na intenção de atropelamento e, assim, não poderia ser a variável segundo a qual o motorista deveria ser julgado, pois, no extremo, aquele que foi negligente com o freio e atropelou a criança poderia ser mais resistente à idéia de atropelamento que qualquer um dos outros dois motoristas. Inclusive, a noção de uma boa ou má vontade, nesse caso, estaria diretamente relacionada com a idéia de que a vida é sagrada e não pode ser interrompida ou com a compreensão do sofrimento que isso poderia causar a terceiros.
Prof. Júlio Esteves: Quando você pergunta pelo “que deveria ser avaliado” nos exemplos dos motoristas citados tanto por mim quanto por Nagel, qual seria o ponto de vista dessa avaliação: o jurídico-penal ou o puramente moral? Pergunto isso, porque me parece que o próprio Nagel oscila entre os dois pontos de vista na avaliação desse exemplo, o que me parece problemático. Pois, como aprendi com Kant, o direito, por sua própria natureza, em contraposição à moral, se atém primariamente à conformidade externa de uma ação à lei, pouco ou nada importando a motivação interna, que constitui justamente o foco da moral. Para exemplificar, se tanto o direito quanto a moral proíbem que se mate, o primeiro exige apenas que as pessoas ajam externamente em conformidade com essa lei, pouco importando se o que as move é o medo das conseqüências ou a compreensão de que é um dever em si mesmo respeitar a vida de outra pessoa, mesmo que surja uma oportunidade de tirar a vida de alguém sem a ameaça de ser punido por isso. Já a moral exige que este mero pensamento de que é um dever, de uma maneira completamente independente das possíveis ou reais conseqüências, más ou boas, neste ou em outro mundo qualquer, seja o motivo interno exclusivo da ação (de não matar o próximo), se tal ação deve possuir autêntico valor moral.
Desse modo, do ponto de vista da moral, o que deve ser avaliado é a intenção, a motivação interna, de atropelar, como você próprio escreveu. Mas, ainda do ponto de vista da moral, essa intenção de atropelar ou tal má intenção pode ser atribuída a um agente pelo simples fato de que ele não cumpriu com o seu dever, a saber, o dever de checar os freios. Nesse sentido, não posso concordar com você, quando diz que “a negligência ou não com o freio não implica, necessariamente, na intenção de atropelamento”, pois, pergunto: que boa intenção poderia ter uma pessoa que sai circulando por aí consciente de que os freios do carro não estão confiáveis? É como se ela dissesse para si mesma: “não quero matar ninguém, mas também não estou com vontade de regular os freios; os outros que façam sua parte, os outros que se cuidem e não passem na minha frente”!!!!!  Isso seria extrema má-fé. Essa pessoa, do ponto de vista moral, só por pensar assim, independentemente de vir ou não a matar alguém, já é censurável.
Do ponto de vista do direito, como este último está primariamente atento ao lado externo da ação, haverá, de fato, como pretende Nagel, uma diferença de avaliação, dependendo da “sorte ou do azar” do motorista imprudente:  se ele não vier a matar alguém, receberá uma repreensão bem menor (talvez uns pontos na carteira) do que receberá, se vier a matar alguém. Contudo, do ponto de vista moral, que Nagel parece não compreender, nossa censura ao motorista imprudente será igualmente rigorosa, independentemente das conseqüências. (Do ponto de vista moral, os nazistas não teriam sido avaliados diferentemente, caso tivessem matado somente 6, e não 6 milhões de judeus, embora isso faça diferença do ponto de vista jurídico).
Walner Mamede: Pensando em uma realidade hipotética, na qual a vida é algo banal e sua sacralidade sequer considerada, a avaliação do atropelamento se equivaleria àquela que fazemos quando insetos se espatifam em nosso para-brisa, independentemente da situação dos freios. O motorista apenas sentirá ‘ressaca’ moral se não havia intenção potencial de atropelar, independentemente da revisão dos freios. Por exemplo, considerando dois motoristas em tudo iguais, a não ser no que concerne à sua preocupação com freios, sua reação moral será idêntica. Não sendo, implica em que um possuía uma ‘intenção potencial’ de matar e isso redunda na conclusão de que sua vontade não era boa e, portanto, reprovável moralmente.
Prof. Júlio Esteves: Do ponto de vista moral, a negligência com os freios, por si só, já é manifestação de uma intenção potencial de matar. Na verdade, creio que mesmo na avaliação jurídica do caso poder-se-ia falar em “assumir o risco de matar alguém”.
Walner Mamede: A avaliação do motorista não deveria ser realizada pela perspectiva de quanto ele preza a vida de terceiros e por quanto ele se arrepende de ter atropelado (essa seria uma avaliação indireta da intencionalidade, já que, no momento do atropelamento, as reações são muito mais instintivas que racionais, não estando presente a intenção propriamente dita, mas uma ‘intenção potencial’)? Isso nos desloca novamente para uma perspectiva kantiana, acredito eu. Contudo, na lida com o mundo, a intenção (pois como dizem, ‘de boas intenções o inferno está cheio’) importa menos que os resultados objetivos da ação, pois a boa vontade pode estar assentada em um erro de julgamento do indivíduo e produzir resultados desastrosos (exemplo dos pais que superprotegem seu filho com a melhor das intenções e ele se torna egoísta e egocêntrico a ponto de cometer crimes para satisfazer suas vontades) e ele estaria sendo julgado não por sua vontade, mas por sua incapacidade de produzir juízos corretos e prever resultados, em última instância, por sua incompetência no uso da racionalidade. Talvez aí esteja o mérito de Nagel.
Prof. Júlio Esteves: Concordo com você quando afirma que a presença de arrependimento e a consideração da intenção nos colocam na perspectiva kantiana e admito também que você está coberto de razão quando afirma na seqüência que “na lida com o mundo, a intenção (pois como dizem, ‘de boas intenções o inferno está cheio’) importa menos que os resultados objetivos da ação, pois a boa vontade pode estar assentada em um erro de julgamento do indivíduo e produzir resultados desastrosos”. De fato, esse é um problema para a posição kantiana.
Nas minhas aulas de filosofia, costumo dizer para meus alunos que podemos distinguir, grosso modo, duas atitudes da filosofia relativamente ao assim chamado senso comum, curiosamente, ambas originadas em Platão. A primeira seria a que eu chamaria de “elitista”, segundo a qual a filosofia, enquanto ciência ou saber verdadeiro, significaria um rompimento total com o senso comum, com a opinião (em grego, dóxa). A segunda atitude, para a qual não tenho um nome, veria a filosofia antes como uma atividade de esclarecimento e de análise de um saber ou conhecimento “desde sempre” presente no homem comum. Essa posição pode ser ilustrada da maneira a mais intuitiva numa interessante passagem das Confissões de Santo Agostinho, um filósofo muito influenciado por Platão. Ele pergunta mais ou menos assim: “O que é o tempo? Quando não me perguntam, sei o que é; quando me perguntam, não sei mais dizer o que é.” O que Santo Agostinho quer dizer é que todos nós temos um conhecimento do que seja o tempo, pois, afinal, até mesmo crianças de 5 anos já fazem simples distinções temporais, mas se perguntarmos a quem quer que seja o que é isso, o tempo, ou seja, qual é a sua natureza, caímos em grandes dificuldades. E é aí, para tentar responder a uma pergunta como essa, que entra a filosofia. Mas se o filósofo consegue chegar a alguma resposta sobre essa questão da natureza do tempo, por exemplo, ele não terá, por assim dizer, ensinado propriamente nada de novo ao homem do senso comum, mas, sim, apenas esclarecido ou trazido à luz algo que todos nós de algum modo sempre já sabíamos acerca do tempo, só não sabíamos que sabíamos. Por isso, eu chamaria de não-elitista essa segunda atitude do filósofo relativamente ao senso comum.
Isso tudo é para dizer que, dentre essas duas atitudes, Kant se situa na segunda, e eu, pessoalmente, concordo com ele. Kant pensa que a tarefa da filosofia consiste justamente numa análise e elucidação de certos conceitos e conhecimentos que todo homem, mesmo o homem do senso comum, possui, só que de uma maneira vaga e não plenamente consciente. Pois, o que Santo Agostinho disse sobre o tempo vale também para a moral: todos nós sabemos o que é moral, pois fazemos juízos morais o tempo todo, mas, se nos perguntam por esse conceito, caímos em dificuldades. Segundo Kant, se prestarmos atenção no conceito de moralidade subjacente aos juízos morais feitos pelo homem comum, veremos que o valor moral de uma ação e, em última análise, do próprio agente, deve ser buscado inteiramente nas suas boas intenções, na sua boa vontade. Isso vem ao encontro do dito ou máxima presente na sabedoria popular; “o que vale é a intenção”. Contudo, e aí vem a sua objeção, pertence também à sabedoria popular o dito segundo o qual “de boas intenções o inferno está cheio” e a filosofia moral de Kant, na medida em que pretende esclarecer o senso moral do homem comum, tem de poder dar conta também desta última máxima.
Eu admito que Kant é um tanto exagerado ao recusar que as conseqüências de uma ação, por ser algo que escapa em grande medida ao controle do agente, não deva entrar em linha de conta na nossa avaliação do valor moral desse agente. Na verdade, quando dizemos que a mera negligência por parte do motorista é algo em si mesmo moralmente censurável, não o fazemos justamente por causa das conseqüências a que pode levar tal negligência? Pois não é um dever moral e não constitui o valor moral de um agente o refletir bem sobre as conseqüências de suas intenções uma vez transformadas em atos? Como diz você, o mérito de Nagel talvez tenha consistido em ter chamado a atenção para o outro pólo da ação, para as conseqüências, um tanto ou quanto negligenciadas por Kant. Mas eu acredito que Kant ainda pode dizer que tem razão o dito popular segundo o qual “o que vale é a intenção”, muito embora seja verdade, de outro lado, que “de boas intenções o inferno está cheio”. Mas o último dito só vale para intenções aparentemente boas, e não para intenções verdadeiramente boas. Vou tentar explicar isso.
Eu me lembro de ter enviado a você um texto mais longo, mas não me lembro se discuti nele uma objeção feita ao conceito kantiano de boa vontade, segundo a qual não seria claro por que razão a boa vontade por si só possuiria um valor com o qual não se poderia comparar nenhuma outra coisa, por exemplo, nenhuma qualidade, como a inteligência ou argúcia de espírito. Os críticos de Kant argumentam que ele só consegue preservar esse incomparável valor de uma boa vontade por meio de artifícios ‘ad hoc’. Tomemos, por exemplo, a figura de Maria Antonieta, supondo que ela tenha mesmo proferido a infame frase: “se os pobres não têm pão, que comam brioches!”. Ora, segundo os críticos, Kant talvez fosse forçado a dizer que a frase de Maria Antonieta indica que ela era uma pessoa de boa vontade, uma pessoa bem intencionada, só que estúpida ou ignorante quanto à miséria por que passava o povo francês. Ou seja, sua intenção propriamente dita era boa, o que estragava Maria Antonieta era outro componente da situação, a saber, sua estupidez e ignorância.  A esse tipo de coisa, o senso comum responde com sabedoria: de boas intenções como essa, o inferno está cheio. Só que, se entendo Kant corretamente, Maria Antonieta não era verdadeiramente uma pessoa de boa vontade, porque uma pessoa de boa vontade em sentido próprio não pode ser estúpida. Pois é incompatível a existência de uma boa vontade numa pessoa que está à frente dos destinos do povo, como ela estava, com uma ignorância quanto à realidade desse povo. Era uma obrigação moral para ela saber da situação real de seu povo. Por conseguinte, sua estupidez e alienação era moralmente censurável. Do mesmo modo, “pais que superprotegem seu filho com a melhor das intenções e ele se torna egoísta e egocêntrico a ponto de cometer crimes para satisfazer suas vontades”, como escreveu você, são moralmente censuráveis, porque eles têm o dever moral de avaliar e refletir sobre o sentido da (des)educação que estão dando a seu filho. Até porque, exemplos disso é que não faltam. Se eles fecham os olhos a isso, estão procedendo exatamente como Maria Antonieta, que fechou intencionalmente os olhos para a pobreza de seu povo, para se contentar com uma auto-imagem de pessoa de boa vontade e bem intencionada.  De boas intenções assim, de fato, o inferno está cheio!!!
Walner Mamede: De outro lado, temos o exemplo do carrasco nazista. Ele foi submetido a condições materiais das quais não poderia fugir sob o risco de ameaçar a própria vida. Assim, despejou sobre seus prisioneiros toda a violência característica do nazismo. A situação foi objetiva, segundo Nagel, mas qual o verdadeiro sentimento do carrasco em relação ao que fazia? É conhecida e história (não me lembro bem como é) de uma carta que um agente nazista encaminhou para seus pais lamentando-se por sua conduta reprovável e desculpando-se, mas justificando-a pelo fato de que, se assim não o fizesse, estaria colocando em risco não apenas sua própria, mas a vida de seus familiares. Também há o que Hanna Arendt argumentou sobre o julgamento, em Jerusalém, no ano de 1961, de Adolf Eichmann, o nazista que afirmou, em sua defesa, apenas estar cumprindo ordens. Como julgar nesse caso? Subjetiva ou objetivamente? As intenções do indivíduo o redimem de seus atos, independentemente dos resultados? Um indivíduo ‘bom’, como eu acredito que seja o caso, pode produzir ‘resultados ruins’ e vice-versa? E o que acontece com ‘a árvore se conhece por seus frutos’? Uma árvore que só dá frutos ruins pode ser boa? Assim sendo, não merece ser reprovada?
Prof. Júlio Esteves: Você argumenta, muito persuasivamente, aliás, que, se o que conta é a intenção, como sustenta Kant em concordância com o dito comum, então talvez o nazista que se vê forçado a cumprir ordens criminosas pudesse continuar mantendo uma auto-imagem moralmente positiva, alegando para si mesmo que só fazia isso para não expor a si e à sua família ao perigo de represálias. Essa situação nos coloca diante do problema da liberdade e de seus limites. Sem dúvida, há situações em que somos forçados a agir de maneira totalmente contrária a nossos princípios morais, visando evitar males maiores. Durante a Segunda Guerra mesmo, muitos nazistas, exercitando seu sadismo, muitas vezes forçaram pais e mães a escolherem qual dos filhos deveria morrer para salvar os outros. Que as circunstâncias objetivas limitam nosso âmbito de escolha é inegável. Mas não creio que seja esse o caso do agente nazista a que você se referiu. Era possível, objetivamente falando, fazer diferente, e muitos alemães só não o fizeram, porque compactuaram com o regime. Prova disso pode ser encontrada em pessoas como aquele empresário do excelente filme ‘A Lista de Schindler’. É verdade que o filme deixa em aberto se o que moveu o sujeito teria sido a intenção de salvar quantas vidas fosse possível, o que conferiria valor moral ao seu gesto, ou se o interesse do lucro seria não apenas uma simples fachada para ludibriar os nazistas, mas o real motivo de ações aparentemente altruístas. Mas o fato é que Schindler, em certa altura, fez coisas que o interesse no lucro não podiam explicar, uma vez que até colocavam em risco sua vida. E eu creio que é sempre possível não compactuar com ações ordenadas por um regime moralmente reprovável, salvo em casos extremos, como quando nos obrigam a matar alguém para não matarem nossa família.
Já o caso dos nazistas que durante o julgamento de Nuremberg afirmaram a própria inocência sob a alegação de estarem “apenas cumprindo ordens superiores”, embora, curiosamente, o mais das vezes tivessem ocupado eles próprios os cargos mais altos na cadeia hierárquica, creio que a análise magistral feita por Hannah Harendt em seu Eichmann em Jerusalém é insuperável. Desse modo, sou inclinado a julgar que nem o agente nazista inferior na escala hierárquica e que disse lamentar o que teve de fazer, e nem muito menos os seus superiores hierárquicos que pretenderam se desculpar de seus crimes alegando estarem só cumprindo ordens, podem ser, sob qualquer ponto de vista, considerados como pessoas de boa vontade. Pois, para usar uma frase sua, mas na negativa, “um indivíduo ‘bom’ (...) nãopode produzir ‘resultados ruins’ (...). Ou seja, uma boa vontade não pode produzir ações más, pelo menos no que tange à sua intenção, que é o que está, estritamente falando, em seu poder. Mas como as ações provenientes de uma boa vontade se desenrolam no mundo e como o mundo é independente dessa boa vontade, pode muito bem ocorrer que boas intenções acabem resultando em conseqüências más, desde que fossem originalmente imprevisíveis, porque, se pudessem ter sido previstas, diremos que a pessoa em questão as deveria ter levado em conta e que, portanto, não era uma pessoa de tão boa vontade assim.
Mas, como podemos saber se uma pessoa tem boa vontade? Nas suas palavras: ‘uma árvore se conhece por seus frutos’? Bem, em parte, sim. Pois, para Kant, uma boa vontade não se reduz ao mero ter boas intenções vazias, sem jamais fazer todo o esforço sincero no sentido de realizá-las. E isso é algo que nós verificamos no dia-a-dia. Pois as pessoas fazem, naturalmente, um excelente conceito de si mesmas e geralmente se atribuem qualidades como coragem ou desprendimento, por exemplo. Só que a presença real dessas qualidades numa pessoa é mais facilmente detectável da perspectiva de um observador externo, ou seja, das ações e comportamentos efetivos, do que da perspectiva do próprio ator. E, de fato, muitas vezes somos forçados a chamar a atenção daquele que se diz corajoso para as ocasiões em que ele foi o primeiro a fugir de perigos reais ou aparentes, ou lembrar àquele que se diz desprendido sobre as ocasiões em que se mostrou uma pessoa extremamente egoísta e materialista. Contudo, uma pessoa pode ter uma boa intenção e envidar todos os esforços no sentido de realizá-la, sem, contudo, ter sucesso nisso, não por qualquer falha sua, mas por forças além de sua vontade, e, apesar dos resultados ou das conseqüências não alcançados, ser considerada, ainda assim, uma pessoa de boa vontade. É o caso, por exemplo, de uma pessoa que se joga no mar para salvar alguém, mas que fracassa em seu intuito, em virtude da força das ondas.
Walner Mamede: Não ficou clara para mim a última questão: uma árvore que só dá frutos ruins pode ser boa? Assim sendo, não merece ser reprovada? Penso que, nesse caso, poderíamos argumentar que nada adiantaria cortá-la e plantar outra no lugar, pois o solo seria o grande culpado e isso salvaria Kant. Consideremos as várias situações possíveis:
Possibilidades
Índole
Circunstância
Resultado
Situação A
0
0
0
Situação B
0
1
0
Situação C
0
0
1
Situação D
0
1
1
Situação E
1
0
0
Situação F
1
1
0
Situação G
1
0
1
Situação H
1
1
1
Onde ‘0’ = ‘ruim’ ou ‘desfavorável’ e ‘1’ = ‘bom’ ou ‘favorável’, sendo ‘Índole’ um descritor para a vontade, conforme o índice ‘0’ (‘má’) ou ‘1’ (‘boa’).
Como determinar o valor moral do indivíduo nessas diferentes situações? No meu entender, é preciso relativizar índole, circunstância e resultados no julgamento de um indivíduo e avaliar a possibilidade de ele produzir resultados diferentes na mesma circunstância. Nem tanto a Kant, nem tanto a Nagel.
Prof. Júlio Esteves: Uma árvore, ou seja, uma vontade que só dá frutos ruins, não pode ser boa, só que, diferentemente de uma árvore, que está, por sua própria natureza, inelutável e estaticamente presa a seu solo ruim e só pode sair dali levada por alguém, uma vontade é, também por sua natureza, uma espécie de agente causal, por conseguinte, tem um aspecto dinâmico, e não pode se desculpar por suas ações más lançando a culpa sobre solo em que estaria “fincada”, a saber, nas circunstâncias históricas, sociais, psicológicas ou mesmo de ordem genética. A vontade, segundo Kant, é responsável, em grande medida, pelo “solo” em que “se fincou”.

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terça-feira, 3 de julho de 2012

O consumo de pessoas na modernidade líquida, a cortesia e a solidão no ambiente de trabalho: pequeno ensaio

Walner Mamede Jr.
Maria do Socorro Correia Lima



Desde a Renascença, o fenômeno da individualização vem se delineando de forma cada vez mais incisiva. A falência do Feudalismo e a ascensão do Capitalismo foram preponderantes nesse processo, levando o ser humano a migrar da vida pública para a privada, primeiro se refugiando no núcleo familiar e tendo-o como referência identitária, posteriormente, estabelecendo sua identidade a partir do trabalho. Atualmente, diante da liquefação das relações de trabalho e sua reverberação para o núcleo familiar, o indivíduo se vê órfão de uma referência identitária consistente. A presente reflexão resvala no fenômeno de liquefação social descrita por Bauman (2001) e suas implicações para as vidas humanas nas suas diferentes esferas: vida pública, privada, relacionamentos humanos, mundo do trabalho, estado e instituições sociais. Para ele, a solidez das instituições sociais (do estado de bem-estar, da família, das relações de trabalho, entre outras) perde espaço, de modo cada vez mais fugaz, para o fenômeno da liquefação. Consequentemente vivemos um tempo de transformações sociais aceleradas, nas quais as dissoluções dos laços afetivos e sociais são o centro da questão. Relacionamentos voláteis e fluidos remetem a uma sensação de leveza, descompromisso e liberdade. A outra face dessa suposta liberdade surge com a descoberta de que a completa individualização é um mito moderno e com a emergência de sofrimentos advindos, por um lado, das tensões e frustrações dessa descoberta, por outro, da criação de estratégias de sobrevivência próprias da modernidade líquida que perpassam por uma aparente cortesia e que redundam em sintomas como depressão, angústia, solidão, desamparo e desterritorialização. Diante disso, mostra-se pertinente analisar o uso de estratégias de cortesia a que recorrem os sujeitos, particularmente, no ambiente de trabalho e o sentimento de solidão oriundo dessas relações pessoais de polidez e do esgarçamento do tecido social.



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O sentimento do Sagrado?



O texto que lerão abaixo me foi encaminhado por um amigo, coincidentemente, em um momento excessivamente crítico de minha vida, momento esse que, segundo alguns, seria propício ao resgate de sentimentos oníricos e um retorno às nossas origens religiosas/místicas. Para essas pessoas, uma posição ateísta apenas se sustenta até o momento em que "não sentimos que precisamos de Deus" ou que "somos tocados pela grandiosidade de mistérios que não explicamos". Contudo, tal visão sobre o ateísmo é parcial e se refere apenas aos que são ateus por desilusão com o divino ou por perceberem no ateísmo uma tribo na qual se refugiar quando nada mais parece fazer sentido. Essas duas situações podem ser reduzidas a um fator comum: uma necessidade de sentido terceirizada. Assim, preenche-se o vazio da alma, carente de religiosidade mística, com uma religiosidade material e o ateísmo é tomado, equivocadamente, por uma religião de descrentes e, como tal, se baseia na emoção de uma fé na inexistência de um Deus, a qual, como toda fé, é  irracional e facilmente substituída por qualquer crença que produza maior conforto afetivo-emocional, preencha o vazio da alma e afaste o medo do nada que consome a pré e a pós-existência material. O verdadeiro ateísmo não se comove com o vazio ou com o nada e se produz pela percepção das recorrentes incoerências e contradições, dogmatica e inteligentemente, negligenciadas  pelo 'conhecimento' religioso e difíceis de serem engolidas, a menos que se predisponha a não aplicar os rigores da razão, sem concessões de conveniência, a esse tipo de conhecimento. Há aqueles que defendem a possibilidade de se dividir a conduta humana, de uma mesma pessoa, em duas (ou mais) dimensões, a uma aplicando-se o rigor da razão (Ciência, Filosofia, Técnica...) e a outra não (Religião, Arte...). Contudo, penso ser isso difícil na prática, pois a capacidade para crer é algo inerente à personalidade da pessoa e se manifestará independentemente de sua vontade em todas as dimensões de sua vida, assim como a capacidade para não crer. Ou seja, um cientista ou filósofo crente terá maior propensão a adotar determinada crença de sua área de atuação e com menos rigor cético, que aquele que, por princípio, o aplica sobre o tipo de conhecimento mais difícil de desvencilhar que possuímos: o religioso. É em momentos como o que vivo, atualmente, e nos quais sou confrontado com a possibilidade de ajoelhar-me diante do Sagrado, que minhas convicções ateístas se mostram firmes. Não se trata se enrigecer-me à custa de uma alternativa viável, em decorrência de uma demonstração de força ou pelo desejo de estar certo em meu posicionamente, mas porque, simplesmente, não consigo ver sentido na posição religiosa quando aplico à ela o mesmo rigor cético que aplico aos demais ramos da minha vida...no bom e velho "skolês": não desce redondo. Não obstante, partilho com vocês o referido texto, por considerá-lo interessante e de extremo bom gosto, além do que, seu posicionamento quanto à emoção insurgente diante do velho e  quanto aos rumos que a Religião tem tomado em nossa sociedade fazem o maior sentido. Com vocês, então, "O sentimento do Sagrado", do Prof. Joel Pimentel de Ulhôa:

O SENTIMENTO DO SAGRADO

Joel Pimentel de Ulhôa*

'A natureza está cheia de deuses...'
Tales de Mileto.


                                   "Independentemente de crermos ou não em um Deus pessoal, transcendente, uma coisa parece óbvia e constante: não há ser humano que não se comova diante do sagrado. Quando nos adentramos num velho monumento de uma civilização perdida, é um impacto o encontro do lugar do sacrifício às divindades deles. A pedra silenciosa e manchada de seus altares, a ara onde se extraiam, com facas de sílica, os corações palpitantes das virgens, o silêncio de um túmulo com os sinais da liturgia e do ritual do sepultamento de milênios atrás, com as marcas da saudade nas flores secas e na grinalda da jovem viúva, deixada, como despedida, na maçaneta da porta, como no túmulo de Tutancâmon -- não há, nesse clima sagrado, quem de repente não se veja falando mais baixo, sussurrando mesmo, e curvando a espinha para enxergar de mais perto o traço, na pedra, do buril do passado com que mãos humanas, como as nossas, cinzelaram o lugar da adoração. É o ambiente, é o clima, é um não sei o quê – eu diria: é a presença ou a sombra do sagrado que invade o nosso espírito e nos faz pensar. Mais que isso: nos faz sentir.

                                   Algo parecido nos sucede, sempre, diante do mistério da morte. É uma solenidade, um respeito que nos faz chorar baixinho amassando os nossos lenços com a dor da despedida, e nos interrogando, sem resposta, sobre por onde andarão os nossos mortos. Nunca pensamos, como num gesto de autoproteção, que ali tudo se acabou e que dentro em pouco aquele ser querido será pó: queremos acreditar na continuidade, na permanência, no para-onde-foi. É o sagrado nos fazendo transcender o aqui e o agora. O sagrado nos fazendo transcendentes, -- e nisso está um grande mistério!

                                   Quando entramos numa igreja medieval, as góticas da Europa, com suas torres trabalhadas, os gregos capitéis de suas colunas, seus arcobotantes vigiados por suas gárgulas grotescas, seus arcos se encontrando, em prece, nas abóbodas altíssimas e sombrias, sentimos que, ali, é um lugar de recolhimento, que nos faz cair de joelhos e rezar. Há o sagrado nos espreitando de algum lugar oculto, e sentimos que nosso espírito é puxado para o alto, para muito acima das banalidades do terra-a-terra da mesmice  dessa vidinha que vamos costurando e levando com nosso dia-a-dia. As rusguinhas e bate-bocas dos políticos, o enfadonho ramerrão do trabalho alienante, a busca da sobrevivência, a preocupação com o lucro e com as oscilações da bolsa, o sonho da propriedade, as tolas vaidades, as presunções, as tensões do último capítulo da novela de TV, -- tudo isso, coisas humanas mas tão pequenas diante do silêncio reverencioso e meio que no lusco-fusco de uma grande catedral!

                                   O mundo está perdendo muito com a vulgarização de tudo. As igrejas, por exemplo, ao se terem transformado em palco para música pop ou para a histrionice aeróbica de padres e pastores do showbiz. É uma pena porque, na verdade, não é a instituição a maior vítima, mas o ser humano. Vai-se à igreja como se vai a um show e dali  se enxota o sagrado, o sentimento de elevação. Confunde-se suar com  emocionar e desodorante com comunhão.

                                   Não sei se religião dos pobres tem que ser religião “pobre”, sem “clima”, num senta-levanta sem graça, que exige mais músculo que introspecção, com músicas de gosto duvidoso. Não entendo isso, talvez por ser “quadrado”, talvez porque, de há muito, não me faz falta essa ginástica. Mas o sagrado, sim, este me faz falta. Em qualquer  forma de suas manifestações: sentir o palpitar da vida que brota silenciosa e abandonada nas fendas de uma pedra; o misterioso mergulho na vida da criança que nasce; a beleza de uma peça de Sófocles ou de uma Pietà de Michelangelo;  a quietude de quem penetra no mundo da morte; a beleza augusta de um gesto generoso; o mistério do tempo passando...Tudo isso, sacralização do cotidiano, coisas sagradas que dão sentido ao mundo profano e sem o quê tudo, tudo mesmo, é de uma banalidade de fazer pena!

                                   Não podemos desprezar o mistério que habita o mundo sem pagar, por isso, um preço muito alto, -- que é o preço do vazio em que, cada dia mais, se transforma a vida!

                                   Ter, porém, o sentimento do sagrado e cultivá-lo não é abdicar da forma de pensar que herdamos dos gregos, ou seja, da razão especulativa, bem humana e liberta da consciência religiosa mítica, que os gregos descobriram para nós. Mas é compreender, como dizia Tales de Mileto, no século VII antes de Cristo, que o mundo está cheio de deuses e que para nós é muito importante aprender a não banalizar e a preservar a solene profundidade desse estofo sagrado que nos envolve, e que a sabedoria da humanidade, ao longo da história, sempre soube revelar. Com cada gesto nosso, contudo, podemos, sem perceber e a todo instante, estar achatando o mundo e vulgarizando a vida: será que é assim mesmo que tem que ser?"

*Joel Pimentel de Ulhôa é professor da Universidade Federal de Goiás e seu ex-reitor.






quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A 'Coisa': os artifícios da língua portuguesa

(autor/es desconhecido/s)

      "A palavra 'coisa' é um 'bombril' do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas do português.
      A natureza das coisas: gramaticalmente, 'coisa' pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma 'coisificar'. E no Nordeste há 'coisar': 'Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?'.
      Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as 'coisas' nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. 'E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios' (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, 'coisa' também é cigarro de maconha.
       Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: 'Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já.' E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.
       Na literatura, a 'coisa' é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.
       Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de 'a coisa'. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: 'Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!'.
        Devido lugar: 'Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)'. A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. 'Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca.' Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.
        Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta 'Alguma coisa acontece no meu coração', de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
        Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!
        Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem 'Coisinha de Jesus'.
         Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, 'coisa nenhuma' vira 'coisíssima'. Mas a 'coisa' tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré ('Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar'), e A Banda, de Chico Buarque ('Pra  ver a banda passar / Cantando coisas de amor'), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou.         Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: 'Coisa linda / Coisa que eu adoro'.
        Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o 'rei' das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.
        Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, 'são tantas coisinhas miúdas'). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade ('ô coisinha tão bonitinha do pai'). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. 'Esse papo já tá qualquer coisa...Já qualquer  coisa doida dentro mexe.' Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: 'Alguma coisa está fora da ordem.'
         Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
        A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: 'Agora a coisa vai.' Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
         Coisa à  toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: 'Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.' E, no verso do poeta, 'coisa' vira 'cousa'.
         Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.
        Mas, 'deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida', cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Podemos, ainda, citar o grande mandamento: 'amarás a Deus sobre todas as coisas'. 'Deus'?! Que coisa é essa??!!! Será que 'há mais coisas entre o céu e a Terra do que nossa vã filosofia pode entender'?! Bem, isso é coisa para outra estória...Entendeu o espírito da coisa???!!"


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sexta-feira, 11 de março de 2011

Suicídio, angústia e solidão (resumo)

Walner Mamede Júnior
Maria do Socorro Correia Lima


O suicídio, como qualquer outra escolha, está imerso na solidão. Esta pode ser vista não apenas como motivadora do ato, mas também como sua parte integrante e indissociável. Assim, não se diferencia de outros atos decisórios, constituindo-se como escolha de uma alternativa, a morte, ou fuga de outra, a vida, motivada pela angústia inerente à própria condição humana (Kierkegard). Ao analisarmos alguns trechos de cartas de suicidas, podemos inferir que o suicídio não se difere de outras escolhas no aspecto ‘solidão’, mas apenas no que tange ao ato pré-decisório. A angústia do suicida se refere à sua percepção de que todos nós somos solitários no ato de constituição de nossas escolhas e isso o asfixia a ponto de materializar nele a perda do sentido da vida.

A dor, entendida como perda, advinda do sentimento de frustração e incompletude, é percebida pelo suicida de forma egocêntrica, uma vez que, como fica claro nas cartas analisadas, a percebe como lhe sendo exclusiva e impossível de ser compartilhada. Diante disso, a vida torna-se, para ele, motivo de infelicidade e, portanto, avessa ao ‘Bem’ e, no caso do religioso, a Deus. Nesse momento, a razão descortina a morte, entre tantas alternativas, como resposta ao problema, até então insuperável, e a inocência, em relação à liberdade possível de escolha, se perde. A morte se apresenta como alternativa à vida e impõe o necessário arbítrio, que se fará na direção dela em caso de perda do lastro com a vida. A consciência da liberdade de escolha gera angústia e medo de errar, em um momento de absoluta solidão, que potencializa a solidão ‘a priori’ (impossibilidade de compartilhamento). A escolha, uma vez realizada (no caso do suicida, a morte), gera uma aparente tranqüilidade que antecede a consumação do ato, sempre solitário.



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O mito de Sophia


De Sophia, a mãe celestial de todas as coisas vivas, filha do Ser Inefável, nasceu aquele que se tornaria o formador e regente do sistema da criação material. Ela sentiu grande tristeza e angustia quando o gerou, pois estava sozinha em um abismo de trevas e sua luz tinha diminuído. Sophia viu que seu descendente era capaz de mudar de forma. Ela se arrependeu de ter gerado um ser em sua solidão e o chamou Yaldabaoth, a “Ignorância-cega”.

Yaldabaoth (Chronos – e não Cronos, o Titã - para os gregos) foi para o caos e, para aprisionar as partículas divinas emanadas de sua mãe, ao acasalar-se com o daemonium Nebruel (Anaké, para os gregos), elaborou um sistema de criação que era de seu agrado, e dentro dele, gerou doze autoridades, sete regentes do firmamento e cinco regentes do abismo. O Criador (Yaldabaoth, Samael, Yahweh ou IHVH – Iodh Hei Vau Hei-, entre outros) e sua hoste (os regentes ou arcontes) mesclaram, então, luz e trevas, para que as trevas parecessem radiantes e, assim, iludissem os olhos. Essa mescla de trevas e luz resultou num mundo imperfeito e fraco, pois as trevas impediram-no de desenvolver um exército de luz, que poderia protege-lo.

Assim, Yaldabaoth permaneceu no centro do sistema do mundo que ele formara, e se tornou arrogante em seu orgulho, exclamando: “Eu sou Deus e não há outro Deus além de mim!” Dessa forma, ele demonstrou sua ignorância agora do verdadeiro caráter do ser, bem como seu orgulho, pois negou até sua própria mãe. Sophia, no entanto, olhou para ele das alturas e exclamou em voz alta: “proferistes uma falsidade ó Samael!” Foi assim que ele recebeu o nome que o tornara o senhor cego da morte (Samael), e então Sophia o chamou também de Saclas, com o que afirmava a tolice dele.

Sophia, porém, sabendo que sua descendência gerara uma criação a partir de sua própria imagem defeituosa, decidiu ajudar secretamente a luz que estava presente no mundo. Desceu de sua habitação e veio para perto da terra, movendo-se de lá para cá sobre ela, assim outorgando sua sabedoria e amor ao sistema que o tolo criador desenvolvera. Os regentes pensaram que eles, sozinhos, tinham criado e ordenado o mundo, mas o espírito de Sophia contribuiu secretamente para colocar esplêndidos padrões arquetípicos na trama do trabalho deles. Foi quando viram, então, uma grande maravilha que apareceu nos céus: um anjo (Espírito Santo) com a forma de um homem, de visão majestosa e gloriosa. O Demiurgo Yaldabaoth e sua hoste tremeram e as bases do abismo sacudiram-se e as águas agitaram-se em terror sobre a terra. Tão grande era o brilho do arquétipo humano celestial que apareceu no céu que os regentes foram por ele cegados e não puderam agüentar seu poder. Desviaram os olhos e fixaram o reflexo da forma do homem, conforme essa aparecia nas águas abaixo.

Todos os regentes e seus servos, invejosos, correram para perto e, juntando seus poderes, fizeram uma réplica da imagem do homem celestial, mas seu trabalho era defeituoso e fraco, porque a força de Sophia não se encontrava ali. O homem falsificado era estúpido e insensato e se arrastava pela terra como um verme. Sophia, então, enviou vários mensageiros da luz e eles, secretamente, penetraram na mente de Yaldabaoth, fazendo-o respirar sobre a lamentável criatura, desse modo infundindo-lhe vida divina. O Demiurgo pensou que era ele quem tinha dotado o homem de luz, mas, na realidade, foi sua mãe Sophia quem deu à humanidade a verdadeira vida. E o homem ficou de pé, caminhou e foi circundado por uma luz não terrestre.

Yaldabaoth e sua hoste reconheceram que o homem era, de fato, um ser cujo poder espiritual e inteligência excediam o seu próprio. Cheios de inveja e raiva, eles atacaram o homem cujo nome era Adão e o lançaram em uma escura região da matéria, para lá definhar em tristeza e privação. Sophia, entretanto, em cooperação com os mais altos poderes da plenitude, enviou a Adão um auxiliar, para instruí-lo e assisti-lo com sabedoria e força espiritual. Esse auxiliar era uma mulher, conhecida como Eva, mas cujo verdadeiro nome é Zoe, que significa vida (a filha de Pistis-Sophia). O sábio espírito feminino penetrou em Adão e ficou escondido aí, para que os regentes não percebessem a sua presença.

Os regentes, então, conspiraram e elaboraram um plano no qual esperavam que o homem poderia cair, e permanecer cativo de seus desígnios. Eles criaram um jardim, cheio de belezas e delícias da terra, e colocaram Adão no meio dele, fornecendo-lhe todo o tipo de objeto agradável que pudesse desejar. Então eles mandaram Adão comer, pois o alimento do jardim é amargo e sua beleza é perversão, sua delícia é engano e suas árvores são iniqüidade, seu fruto é veneno incurável e sua promessa é morte.

As belezas e os prazeres oferecidos eram enganosos, corruptos e planejados para mantê-lo cativo dos regentes, sem vontade ou vida própria. Havia, também no jardim, uma outra árvore, mas eles proibiram Adão de tocar ou de comer do seu fruto. Eles o enganaram a respeito da árvore, lhe dizendo que sua raiz é amarga e seus ramos são morte, sua sombra é ódio e em sua folhagem está o engano, seu suco é o ungüento da perversidade, seu fruto é mortal e sua seiva é a cobiça; e que ela germina das trevas. Mas essa árvore era, na verdade, a inteligência-luz, a sabedoria. E dizendo tais coisas sobre ela, eles impediram Adão de ver sua plenitude e conhecer a Verdade, fazendo-o ficar preso naquilo que era realmente ruim, mas que diziam a Adão ser bom.

Mais uma vez Sophia e os poderes celestiais (na forma de uma serpente) foram em socorro de Adão e o instruíram a comer o fruto daquela árvore e desafiar o regente e seus anjos tirânicos. Ao mesmo tempo, a mulher nasceu de Adão, mas o chefe dos regentes a reconheceu como tendo a luz de Sophia e enfureceu-se. Ele a perseguiu por todo o jardim e, tendo-a subjugado, violentou-a e ela concebeu dois filhos dele, Caim e Abel. Porém, o espírito brilhante de sabedoria que habitava em Eva escapou e, assim, apenas seu aspecto humano foi violentado e não Zoe, o espírito vivo. Caim tornou-se mestre da terra e da água e dele descendem os homens e mulheres com inclinação para a matéria, ao passo que Abel comandou o ar e o fogo e se tornou o pai dos seres humanos que valorizam a alma e a mente. Mas Caim matou Abel e Adão percebeu o que o regente tirânico tinha feito e, tendo gerado um filho, Seth, com inclinações espirituais, ele se tornou pai daqueles que aspiram pelo conhecimento supremo (Gnosis) e por uma união com o Espírito.

Os anjos tirânicos, então, observaram, enfurecidos, que a humanidade seguia seu curso e não iria permanecer no paraíso dos tolos, onde queriam mantê-los cativos. O chefe dos regentes amaldiçoou então, toda a humanidade, especialmente a mulher. Entretanto, Eva deu à luz uma filha, chamada Norea, plena de sabedoria divina, que permaneceu na terra por muito tempo como uma ajudante da humanidade, porque era sábia e conhecia os esquemas e más obras dos anjos tirânicos.

Enquanto isso, os homens se multiplicaram, instruídos por Seth e Norea, muitos se voltaram ao conhecimento supremo, divino, assim, os regentes ficaram com poucos homens e mulheres que os aceitavam como deuses e seguiam suas leis. Furiosos, desejaram destruir a humanidade, então resolveram provocar um dilúvio. Norea, vendo o que eles iam fazer, instruiu um de seus filhos, Noé, para que ele construísse uma arca onde todos os puros pudessem ser salvos. Então ele, instruído por sua mãe, assim o fez.

Os anjos maus, então, assaltaram Norea, desejando violá-la com tinham feito com Eva, sua mãe, mas um grande anjo de luz chamado Eleleth a resgatou e lhe deu forças para continuar sua missão. Assim, com a ajuda de Norea, a partir de seu filho Noé, o esquema dos anjos tirânicos foi frustrado e a humanidade preservada.

Desde então, Yaldabaoth e seus anjos buscam dominar a raça humana, mesclando sua essência com a humanidade, corrompendo mulheres humanas, gerando, com elas, filhos imperfeitos. Assim, a humanidade tem vivido em conflito e divisão, pois o chefe dos regentes nela semeou cólera. A verdadeira sabedoria tornou-se rara e os filhos dos homens aprenderam coisas inúteis e mortas, seu conhecimento tornou-se mundano e corrupto. Repetidamente os regentes se reúnem para planejar o aprisionamento daqueles que não querem servi-los. Mascaram-se como mensageiros da luz, ou mesmo como o próprio Divino Inefável, exigindo obediência e adoração, iludindo profetas e videntes, elaborando leis e mandamentos, com os quais possam constranger os filhos dos homens. Mesmo assim a raça humana nunca foi deixada em abandono, Sophia nunca deixou de lutar por seus filhos, tendo depositado em todos os homens e mulheres, também, a sua luz e enviado em seu socorro seu mais iluminado mensageiro, Christós que, assumindo sua forma humana, Yehoshua (ou Yeshu), disseminou luz e sabedoria entre os homens, para que estes pudessem alcançar o Pleroma (Paraíso, Eternidade, Absoluto) e se libertar de Yaldabaoth.

(Mito gnóstico – autor desconhecido)