A entrada gratuita para motociclistas sem garupa, no Capital Moto Week (CMW), Brasília, esconde uma estratégia de marketing inteligente e questionável. Em vez de sermos convidados de honra, tornamo-nos o cenário vivo do evento, em direção à perda de sua identidade. Enquanto nos exibimos, como gado em uma exposição agropecuária, os organizadores lucram com ingressos, aluguéis de estandes para patrocinadores e venda de espaço para motoclubes. Ainda na metáfora do "gado", esclareço que não me refiro a uma comparação da pessoa com um animal, mas sim à posição física que nos foi reservada, no evento. Quem já foi em um evento agropecuário entende do que falo. O gado fica, exatamente, onde ficamos, nas baias e na periferia do evento. Obviamente, não tem como ser diferente, mas, dessa posição puramente física, evoluímos, como o gado, de protagonistas para coadjuvantes. O gado é apenas figurante em um evento que, em tese, ocorre por causa dele. São apenas pano de fundo para a atração de público e foi isso que nós, motociclistas, nos tornamos, no CMW.
Nesse contexto, o/a garupa é tratado/a como um mero/a acompanhante, precisando pagar para entrar, fora de horários pré-estabelecidos, como se não fizesse parte da cultura motociclística sua presença no evento e em todos os outros espaços a nós destinados. O argumento de que liberar a entrada de grarupa predispõe ao burlamento do ingresso não se justifica diante das atuais tecnologias. Enquanto isso, nós, os verdadeiros protagonistas — motociclistas e garupas — temos nossa cultura transformada em produto de mercado, recebendo em troca apenas um "ingresso de cortesia". Há quem fique feliz com isso e se conforme com a confraternização e o espírito biker dentro das áreas de camping, como um refúgio, afinal, que opção temos? E é engraçado, porque não vemos, mais, tantos coletes quanto víamos antes, nas áreas comuns, pois todos ficamos entocados, saindo de vez em quando para tomar um ar e ver o que tá rolando ou para ir para outra tenda confraternizar (aliás, a tenda dos Kamikazes ainda mantém a atmosfera adequada ao um evento motociclístico, em termos de seus shows). Por que será que isso acontece? Já pararam para pensar? Não seria, justamente, pelos problemas que estou expondo?
Se é verdade que "cada um vai onde se sente feliz", também é verdade que qualquer motoclubista que se sinta feliz com a atual configuração do CMW não conhece seu próprio valor para o evento, não enxerga o potencial não explorado do evento e não possui os mesmos critérios de qualidade de quem o critica e, aqui, cabe um esclarecimento. O financiamento prévio de um evento desses, em geral, corre por conta de duas rubricas: setor público, via Lei Rounet e Emendas Parlamentares; e setor privado, via patrocínios empresariais e venda de espaços aos MC. A cobrança de ingressos, terceira via de entradas financeiras privadas (mas a posteriori), só é possível porque existe patrocínio privado, então, ganham duas vezes. O financiamento pela Lei Rouanet apenas permite cobrança de ingressos de maneira proporcional ao patrocínio que excede o financiamento a partir da Lei, o que precisa ser declarado no projeto e na prestação de contas. Ainda, para justificar o financiamento estatal, o evento precisa possuir contrapartida em cotas gratuitas sociais e essas cotas são cumpridas pela entrada gratuita de motociclistas (que, no meu entender, estão aquém do que deveriam ser, tvz, por isso, inflem o número de participações, para não correrem o risco de terem que devolver verba). Então, a gratuidade não é um benefício é uma obrigação legal e nós é que garantimos o cumprimento dessa obrigação, portanto, deveríamos ser melhor tratados, sim!
Não se trata de "quem não gosta não vai", como tem sido comum ler nas redes sociais e grupos de WhatApp. Entendo que o evento seja privado e que os donos de um evento têm a total autonomia para transformá-lo no que bem entendem, especialmente, qdo é um evento comercial. Entretanto, o MotoWeek nasceu como um movimento e não como um evento, ainda como MotoCapital. Era um movimento de celebração do motociclismo, em especial, do motoclubismo. Com o tempo, foi deixando de ser um movimento para se tornar um evento comercial, onde o motociclismo se tornou secundário. De protagonista, o motociclismo passou a coadjuvante. O foco deixou de ser a confraternização para se tornar o comércio e a atração de público para obtenção de lucro, e esse público está cada vez menos característico do meio motociclístico, interessado nas bandas e no glamour de fazer parte de um mundo que sequer entendem!
Biquini, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Samuel Rosa, Angra, Lobão, Cidade Negra, Marcão Britto & Thiago Castanho (Charlie Brown Jr), Detonautas e a banda internacional Magic, só pra falar do palco principal, sem precisar falar do Moto Bar e do Saloon, representa um line-up, excessivamente, pop, do qual, talvez, salvem-se Biquini, Capital e Angra e olhe lá! O melhor palco continua sendo dos Kamikazes, desde sempre, pq entendem o que o MOTOQUEIRO, com letras maiúsculas, gosta! De resto, com pequenas exceções, estão longe de seguirem o que o MotoCapital, origem do MotoWeek, foi! Em geral, o público nem entende o que é motoclubismo (não mais do que vêem nos filmes), o line-up não é feito para nós, as lojas não são dirigidas para nós, o ambiente não é contruido pra nós, os holofotes não estão no motociclismo mais! O parque comercial privilegia as grandes marcas patrocinadoras, reservando pouco espaço para que os pequenos empresários (às vzs, tb, do meio) exponham seus produtos exclusivos, característicos do motociclismo. O que se encontra no evento é o que encontramos nos grandes magazines, perdeu-se a autenticidade. Não se tem mais a expectativa de "vou ver o que tem de interessante pra comprar e que não acho em outro lugar".
O evento perdeu, completamente, a atmosfera biker, esta restrita às tendas dos MC, espalhadas onde não existe interesse comercial e apenas até que tal interesse surja. Pra se ter uma ideia, era possível encontrarem-se inúmeras áreas livres subutilizadas, completamente vazias, onde ninguém podia colocar barraca, pois não foi alugada. Ao lado dos Nacionaes MC, havia uma assim de quase 1000m2, sem qualquer motivo aparente justificável para isso. Quem vai acampar fora de uma tenda de MC é motociclista também, porque não poderia ser ali? Ter motociclismo em um evento não é o mesmo que ter um evento para o motociclismo...é nisso que precisamos focar ao avaliar o CMW! Frequento o evento há 18 anos, sem perder uma edição, e digo com propriedade que mudou muito e para pior, no quesito cultura biker. Pra mim, pouco importa se o evento é apoteótico, maior da América Latina, com projeção internacional. Isso apenas importa do ponto de vista comercial, pois ele não reforça, celebra ou valoriza a cultura biker, apenas a explora, como um produto na prateleira. Contudo, estão dando um "tiro no pé", ao negligenciarem o motociclismo em busca de um público mais amplo. Uma breve conversa com expositores e logistas revela fácil (como identifiquei) que as vendas caíram, absurdamente, dos últimos anos à atualidade, a ponto de não cobrirem o esforço dos 10 dias de evento, pois o público que lá está hoje não consome o que é exposto e muito menos nós, motoqueiros, consumimos, pois não dizem respeito a nós, são caros e pouco atrativos. Isso tende a afastar os comerciantes e a minar a grandiosidade do evento, com o tempo.
Obviamente, é opção dos organizadores secundarizarem o motociclismo e privilegiarem a expansão, em direção a um modelo de negócio comercial, o empreendimento é deles, mas não precisamos concordar, pacificamente, afinal, nós fomos os pioneiros do evento! Nesse sentido, acredito que estejamos carentes de um evento raiz (o Movimento Paralelo foi uma tentativa, infelizmente, natimorta, há poucos anos, e o Portinho está tentando criar um, precisamos lhe dar apoio), em que possamos, realmente, confraternizar e celebrar a cultura biker. Penso que, talvez, fosse uma atitude política de força, protesto e irmandade os MC de Brasília se negarem a participar do CMW, realizando uma coalisão para negociar com a organização do evento seu redirecionamento sob o risco de perderem nosso apoio (apoio esse essencial para a existência do evento, não nos esqueçamos disso! Temos um poder que não estamos explorando por pura desunião). Vou além, deveríamos realizar uma campanha junto a outros MC de outros Estados para que não participem, até que as negociações nos sejam favoráveis. Afinal, os pilares do motociclismo não são Respeito, Igualdade, Honra e Irmandade? Precisamos respeitar a tradição dos encontros, garantir a igualdade de participação, honrar os princípios do motociclismo e seus pilares e exercer a irmandade, promovendo a união e o companheirismo, criando uma rede de apoio e solidariedade em torno de um ideal, no caso, a requalificação do CMW, que explora nossa cultura e não nos oferece o devido reconhecimento.
Sem essa conscientização não somos mais do que um grupo de velhos sobre duas rodas, sem qualquer força de expressão social em defesa dos valores que erigiram o mundo do motociclismo! Infelizmente, o conformismo com o que se recebe, sem se ter consciência sobre o que se pode receber, nos torna inertes, socialmente. Percebo irmãos e irmãs, completamente, equivocados com a situação e as críticas realizadas ao CMW. Não se trata de julgar o compromisso individual de quem quer que seja, com o espírito biker, principalmente, fora do CMW. Não é disso que se trata, não é uma questão moral, nem pessoal. A crítica é, objetivamente, sobre o EVENTO e não sobre a conduta social de seus organizadores ou frequentadores, e as duas coisas não se confundem! Não há que se tecer nenhuma crítica à pessoa dos organizadores, até pq são empresários muito competentes. Fazer um evento desses não é fácil e o evento, em termos de organização, não deve nada a um Rock in Rio, por exemplo.
Entretanto, reafirmo o enfraquecimento da cultura motociclística, no evento. O fato é que quem não sabe o que pode ter, não consegue ver o que não tem e se satisfaz com o que recebe. Quem acha que o evento oferece, suficientemente, aquilo que o motociclismo merece, jamais concordará comigo. Nossos critérios de julgamento sobre o que seja ou não um bom evento são, claramente, distintos. Assim, de nada adianta discutirmos nossas conclusões a esse respeito se, antes, não debatermos esses critérios que antecedem nossos juízos de valor sobre o evento, senão ficaremos "correndo atrás do rabo". E sim, sempre há a possibilidade de deixar de frequentar, mas não é disso q deve se tratar o debate. O CMW monopolizou o espaço de eventos em julho, no DF, então, dificilmente, terá concorrentes e o Movimento Paralelo (do qual fui parte ativa e integrante) foi a prova disso. Esse monopólio não surgiu de graça, foi fruto de um trabalho de muitas mãos, por anos. Anos pelos quais não passaria sem a mão dada e o apoio incondicional dos MC distritais, de inicio, e nacionais, em um momento de maior maturidade.
O investimento e parceria dos MC, junto à habilidade de gestão dos organizadores, foram os responsáveis pelo nascimento e crescimento do evento do qual somos, agora "reféns". Se esses mesmos MC (nós) quiserem um espaço mais "com sua cara" precisarão lutar por isso, por meio de negociações junto à administração, mostrando os pontos fracos do evento, como reafirmação da histórica parceria e compromisso com a cena motociclística, não só do DF, mas do Brasil. Não discuto, aqui, o "ame-o ou deixe-o". Não se trata de tentar atender interesses particulares desse ou daquele MC, mas de respeitar os interesses de toda uma enorme classe de parceiros, não de clientes ou usuários, mas parceiros que somos. O que proponho é a discussão de um conceito de evento, o qual se perdeu ao longo dos anos. Se a questão fosse apenas de satisfação no âmbito pessoal, contra uma maioria, o melhor seria fugir mesmo pra outro evento mais condizente com o espírito individual e deixar o CMW pra quem não se importa com isso e se contenta com o que já é ofertado.
Minha proposta é que os MC permaneçam na parceria e ajudem a organização a perceber seu erro e a recalibrar o evento, de forma que ele se torne mais grandioso do que é e, ainda, seja a verdadeira expressão do motociclismo. Parceiro de verdade faz isso, não simplesmente sai porque não agrada. Quem foge, sem se posicionar, é cliente, público e nós somos bem mais isso, por isso temos o compromisso, o dever de tentar. Temos interesses na qualificação do evento, pois isso atende expectativas de todos nós, inclusa a dos organizadores e de quem mais tiver interesse econômico no evento. A questão é só de calibração, não de destruição. Não sou contra o evento, pelo contrário, admiro e respeito a trajetória dele, só não sou conformado, porque sei do seu potencial e que ele pode ser mais. Entretanto, como eu disse, os critérios de qualidade de quem refuta a crítica parecem ser diferentes dos meus, mas será que são mesmo?! Não seria, apenas, uma questão de diálogo para ajustar pontos de vista e estratégias?! Mais uma vez: não estou refletindo sobre as pessoas terem ou não espírito biker ou sobre a existência desse espírito na área de camping ou dentro das tendas e sim sobre o EVENTO possui-lo e, aí, talvez fosse mais acertado falar de CLIMA BIKER, pois se refere ao ambiente. Como exemplo da redução desse clima, ao longo dos anos, podemos citar como indicador o próprio público. Já repararam o quanto o público mudou ao longo da vida do evento, desde sua criação como Brasília MotoCapital? O que viamos pelas ruas, entre os comerciantes, era, em sua maioria, motociclistas e suas famílias e amigos. Com o crescimento, veio o público mais geral, mas, ainda, ligado à cultura motociclística. Agora, o que vemos são pessoas sem qualquer compromisso com essa cultura, que estão ali apenas porque é mais uma "baladinha descolada".
Na edição de 2025, na última noite do evento, tivemos até funk, na madrugada de sábado pra domingo! Um grupo de jovens se achou no direito de sair do evento, encostar o carro no muro, do lado de fora, ao lado da área de camping, e ligar o som no último volume, até de manhã. Isso incomodou todo mundo que estava acampado daquele lado! Não era o caso de a organização do evento chegar e coibir? Quando se tem um bar, por exemplo, a arruaça dos clientes na rua, em frente o bar, é responsabilidade legal do dono do bar! Em outros tempos, qualquer MC teria saído e silenciado a arruaça, assim como faziam com os arruaceiros que ficavam acelerando ou empinando nos corredores de trânsito. O público do sertanejo, do funk, do corta-giro, da baladinha, da arruaça não teria vez no evento (como não tinham), se ele tivesse fortes características bikers. Eles sequer iriam comparecer em massa, como fazem hoje, porque se sentiriam deslocados e, se fossem, reconheceriam sua posição de convidados em um ambiente que possui valores muito diferentes dos seus, exigindo respeito. Entretanto, hoje, os MC estão deslegitimados para agir e aqueles que, antes, eram convidados se sentem os próprios donos do evento, justamente, porque ele assumiu uma identidade genérica, em nome da expansão. Até as bandas têm perdido lastro com a cultura biker! Do ponto de vista do motociclismo, a única coisa que, ainda, vale a pena no CMW é a confraternização no âmbito do camping, fora dessas áreas parece que adentramos outro mundo!
O monopólio do CMW é algo natural, uma constatação objetiva e uma consequência histórica. Ele é tão grande que inviabiliza outro evento, e tem seus pontos positivos, por isso mantém-se firme. Contudo, o que o mantém e garante sua enormidade e solidez não é mais a cultura motociclística e sim a cultura pop. Se os motociclistas deixarem de frequentá-lo, ele continua sozinho e isso é outro forte indicativo de que ele perdeu lastro com o motociclismo. E, justamente, por sua generalidade identitária, por seu monopólio e por sua projeção nacional, o público é tão grande, mas isso não é sinônimo de boa qualidade. Uma conclusão sobre a satisfação de beneficiários de um serviço (no caso, o CMW) necessita ir além dos números de público. Existem inúmeros indicadores que relativizam esse quantitativo, quando queremos fazer uma avaliação séria. Se quantidade bruta de pessoas fosse um critério bastante e suficiente para avalizar o sucesso de algo, o número de pessoas nas filas do SUS e nos pontos de ônibus diriam que nossa Saúde Pública e nosso transporte público são top de linha!!!
Na minha humilde opinião, os motoclubes sequer deveriam pagar pra poder acampar, já que foram a grande atração para o público, na consolidação do evento. Toda a despesa do acampamento dos MC pode e é coberta pelo financiamento estatal, a cobrança posterior pela área se consubstancia no lucro. Se isso não ocorre, como opção estratégica, é porque a administração está investindo, excessivamente, na expansão do evento, o que o tornará ainda mais distante da cultura motociclística. Entretanto, com o discurso de que devemos dar graças por termos "entrada gratuita", por termos "espaço de confraternização", por ser "um evento grandioso", por "não ter outro evento igual", etc, etc, etc...fomos aos poucos perdendo espaço, força e poder para garantir um evento motociclístico verdadeiro e, hoje, para a continuidade do evento (que virou um festival de Rock), somos dispensáveis. Contudo, por meu compromisso com a cultura motociclística, acredito que temos o dever de alertar a organização sobre o erro que estão cometendo (inclusive, as vendas caíram, em parte, por causa disso e os comerciantes estão reclamando), pois estão deixando de lado a identidade que, tão duramente, foi construída pelos diferentes donos do evento, junto com os MC, desde os idos shows na Concha, para se tornar mais do mesmo. Não é simples reclamação ou mimimi, como dizem! É preocupação com a manutenção do evento como um evento motociclístico e não como um evento que "tem uns motoqueiro acampado, que entra de favor"! Penso que minha obrigação como motoclubista é levantar essa bandeira. Se, amanhã, eu perceber que a luta foi em vão, que estou falando com o vento, pelo menos, poderei dizer "EU TENTEI"!