Walner Mamede
De que liberdade
dispõe uma pessoa que não encontra condições dignas para viver, trabalhar,
aprender e decidir sobre o próprio futuro?
Essa pergunta está no
centro de uma tradição filosófica pouco conhecida no Brasil: o liberalsocialismo.
Liberdade e justiça
social: dois lados de uma mesma questão
O liberalsocialismo
surgiu no contexto das lutas democráticas e antifascistas europeias do século
XX, especialmente na Itália, reunindo pensadores como Carlo Rosselli, Guido
Calogero e Aldo Capitini. Posteriormente, suas questões fundamentais também
encontraram interlocução com Norberto Bobbio. Apesar das diferenças entre esses
autores, uma preocupação os aproxima: compreender como a liberdade individual e
a justiça social podem constituir exigências complementares de uma sociedade
democrática.
A liberdade não se
realiza plenamente quando permanece restrita àqueles que possuem recursos e
oportunidades para exercê-la. Da mesma forma, uma sociedade que pretenda
promover a igualdade sacrificando a autonomia das pessoas, a pluralidade e as
liberdades políticas compromete os próprios fundamentos da emancipação que
anuncia. A questão, portanto, ultrapassa a conhecida oposição entre capitalismo
e socialismo, Estado e mercado, propriedade privada e propriedade coletiva.
O problema mais
profundo está nos valores que orientam a organização da sociedade e nos
critérios utilizados para julgar suas instituições, suas decisões e seus
resultados. Uma sociedade deve ser considerada próspera apenas porque produz
muita riqueza material? Ou também porque oferece condições dignas de existência
e oportunidades reais de participação às pessoas que contribuem para
produzi-la? É possível reconhecer legitimamente o esforço, a qualificação, a
criatividade e a iniciativa individuais sem ignorar que as oportunidades são
profundamente desiguais?
Essas perguntas
revelam que a riqueza e o mérito não podem ser julgados independentemente do
contexto e de seus efeitos sobre a vida coletiva.
Prosperidade não é
o contrário de justiça social
Uma das contribuições
mais relevantes dessa perspectiva está em superar a falsa oposição entre
prosperidade individual e bem-estar coletivo. A produção de riqueza é
necessária ao desenvolvimento humano. A iniciativa privada, o empreendedorismo,
a cooperação, a inovação tecnológica e o trabalho possuem importância econômica
e social. O problema não está simplesmente em quem possui a riqueza, mas nas
condições em que ela é produzida, apropriada, utilizada e distribuída.
Uma empresa privada,
uma cooperativa e uma organização estatal podem contribuir para o
desenvolvimento social, embora apresentem formas diferentes de propriedade,
gestão e distribuição de resultados. Nenhuma delas se torna justa
exclusivamente por sua natureza jurídica. O que importa é examinar suas
práticas, seus resultados, suas responsabilidades e suas consequências para
trabalhadores, consumidores, comunidades e sociedade. Isso também exige uma
concepção mais criteriosa de mérito.
O reconhecimento do
esforço e da contribuição individual é legítimo, mas depende de critérios de
julgamento. E esses critérios expressam valores: aquilo que uma sociedade
considera importante, desejável e digno de reconhecimento. Uma atividade pode
produzir elevado retorno financeiro sem contribuir proporcionalmente para o
bem-estar coletivo. Outra pode gerar enorme valor social e receber
reconhecimento econômico insuficiente. Por isso, a justiça social exige
considerar simultaneamente contribuição, responsabilidade, necessidades
humanas, oportunidades e consequências coletivas.
Nessa perspectiva, o
Estado democrático possui responsabilidades fundamentais de planejamento,
regulação, proteção de direitos e promoção do desenvolvimento. Sua força deve
estar na capacidade de servir à sociedade, prestar contas e submeter suas
decisões ao controle público.
A economia deve
estar a serviço das pessoas, e não as pessoas a serviço da economia.
A revolução começa
no pensamento?
Aqui, desenvolvemos
uma ideia central: transformar a sociedade exige examinar criticamente os
valores que orientam a construção e o funcionamento de suas instituições. Essa
reflexão estabelece um diálogo com dois pensadores fundamentais: Hegel e Marx.
Hegel ajuda a
compreender que a liberdade precisa encontrar realização nas instituições e nas
relações sociais. Marx, por sua vez, demonstra a importância das condições
materiais, das relações de produção e dos conflitos econômicos na organização
da sociedade. A transformação, portanto, envolve pensamento e realidade
material em uma relação permanente.
Mudar nossa maneira de
compreender o mundo pode modificar os critérios pelos quais julgamos o que é
justo, necessário ou desejável. Mas essa mudança precisa converter-se em
práticas, decisões e instituições capazes de produzir consequências concretas. É
nesse sentido que podemos afirmar que a revolução do pensamento colima com a
transformação das condições materiais de existência e se radicaliza a partir
delas.
Paulo Freire contribui
para essa compreensão ao relacionar consciência crítica, diálogo e ação
transformadora. José Martí recorda a importância de conhecer a própria
realidade para construir instituições adequadas às necessidades de um povo.
Habermas ajuda a compreender por que decisões coletivas precisam de
argumentação e legitimidade democrática. Hannah Arendt acrescenta uma dimensão
essencial: a política acontece quando pessoas diferentes compartilham um espaço
público, discutem problemas comuns e assumem responsabilidades pelo mundo em
que vivem.
Nessa perspectiva, a participação política deve reconhecer as desigualdades e discriminações concretas sem reduzir toda a vida pública a disputas de identidade ou pertencimento. O reconhecimento das diferenças precisa caminhar junto com a defesa de direitos universais e da justiça distributiva.
Dos valores às
ações: a responsabilidade de transformar
Uma concepção política
não pode ser julgada apenas pela qualidade de suas intenções. Defender
liberdade, democracia e justiça social é importante, mas também precisamos
perguntar o que nossas ações produzem concretamente. Uma política pública pode
alcançar suas metas administrativas e, ainda assim, não resolver o problema que
justificou sua criação. Uma organização pode apresentar excelentes indicadores
de desempenho e produzir benefícios sociais reduzidos. Uma iniciativa solidária
pode mobilizar muitos participantes sem alcançar adequadamente aqueles que mais
necessitam de apoio.
Por isso, não podemos nos abster de relacionar a identificação de problemas sociais à explicitação de
valores, à definição de critérios de julgamento, à escolha dos meios de
intervenção e à avaliação de resultados. A contribuição de pensadores como
Bruno Latour e Annemarie Mol ajuda a reconhecer que a transformação depende
também de condições concretas: pessoas, recursos, tecnologias, procedimentos,
instituições e relações sociais. Assim, boas intenções precisam encontrar meios
adequados de realização, e os resultados devem ser examinados com disposição
para reconhecer acertos, corrigir erros e rever decisões.
Essa exigência vale para governos, empresas, organizações sociais e também para nós, enquanto cidadãos. Se defendemos solidariedade, precisamos praticá-la. Se valorizamos a democracia, nossas relações e decisões devem expressá-la. Se reivindicamos consciência política, precisamos cultivar o pensamento crítico, inclusive diante de nossas próprias convicções.
O liberalsocialismo
não oferece uma fórmula definitiva para organizar a sociedade. Sua contribuição
está em recolocar questões fundamentais sobre liberdade, justiça, prosperidade,
democracia e responsabilidade pública. O pensamento que inspira esta reflexão
propõe aprofundar essas questões mediante uma relação permanente entre valores,
condições materiais, participação democrática e avaliação das consequências de
nossas escolhas.
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