sexta-feira, 18 de setembro de 2015
quarta-feira, 1 de abril de 2015
MOTOQUEIRO OU MOTOCICLISTA? EIS A QUESTÃO
Walner Mamede
(motoqueiro convicto)
O termo “motoqueiro” assumiu a
atual conotação pejorativa, no Brasil, em razão de uma campanha iniciada em meados dos anos
80, por uma revista especializada, para diferenciar (de maneira um tanto
classista e preconceituosa) os recém profissionais motociclistas, que hoje
chamamos de motoboys, dos outros que usavam a moto como meio de transporte e
lazer. Assim, “motoqueiro” foi a primeira designação para o que hoje é, simplesmente,
a reconhecida categoria profissional “motoboy” ou “motofretista”, e “motoqueiro”
acabou passando a ser usada como sinônimo de arruaceiro no trânsito. Mas por
que isso?!
Na verdade, a origem das duas palavras,
"motociclista" e "motoqueiro", é anterior ao uso atribuído
na década de 80. As motos entraram em cena, de maneira significativa, como
estilo de vida, após a Segunda Guerra Mundial, dando origem aos clubes de
motociclismo que começavam como irmandades de veteranos. Entre 4 e 6 de julho
de 1947, Hollister, uma cidadezinha pacata com cerca de 4 mil habitantes,
sediava o evento da American Motorcyclist Association (Associação Americana de
Motociclismo), que reunia corrida de motos e muitas festas, e não contava com a
chegada em massa de bikers (como eram chamados, indistintamente, os condutores
de motos), que promoveram bebedeiras, brigas,
rachas de moto e confusões de toda ordem, necessitando de intervenção policial
e inúmeras prisões. O evento de Hollister Riot de 1947 foi um ponto de virada
na evolução da cultura biker e ajudou a consolidar a percepção comum a seu
respeito.
Em razão do encontro, logo depois, uma declaração da AMA (American Motorcycle Association) afirmou que 99% dos motociclistas eram cidadãos exemplares, que usavam motocicletas como lazer, nos finais de semana. O incidente inspirou o filme "The Wild One" (O Selvagem), estrelado por Marlon Brando em 1953, no papel de líder da gangue Black Rebel Motorcycle Club, e o estereótipo do “1%”, do fora da lei, do rebelde tatuado se popularizou e foi adotado por motoclubes pioneiros nos EUA, mesmo antes do filme.
O filme possuía um enredo pobre e um ideal raso, em uma representação um tanto distorcida do motociclismo. "O mundo da competição era um fator determinante para a formação e difusão dos motoclubes nos EUA. A AMA era responsável pelas regras relativas aos seus membros, pela segurança nas corridas, bem como pela ‘imagem familiar’ que os eventos necessitavam ter para a venda de ingressos..." (https://amigosdaviuva.jimdofree.com/a-historia-do-1). Nesse evento, por um descuido organizacional, alguns grupos arruaceiros que, por acaso, usavam (ou não) motos, foram para Hollister e começaram os problemas. A partir daí, a imprensa, vendo que o tipo de notícia vendia jornal, passou a publicar, o que hoje chamamos fake news, sobre o motociclismo, atribuindo aos motoclubes a responsabilidade pelo problema. Isso incentivou grupos vândalos, traficantes ou, simplesmente, playboys irresponsáveis a criarem o selo de "motoclubes clandestinos" (outlaw motorcycle clubs) em relação à AMA, que oficializava filiações, encontros e competições, e adotaram o emblema 1%, comprometendo a imagem dos motoclubes oficiais. "The Wild One", fazendo coro com a visão distorcida dos motoclubes, contribuiu para esta imagem, com um enredo barato, e influenciou toda uma geração dentro do motociclismo* e do rock. Um filme de peso, mas, puramente, comercial e carente de valor seja artístico, seja social.
À parte do cenário motoclubista, o bad boy encarnado por Brando, com sua jaqueta de couro, jeans e botas, foi a referência perfeita para os jovens dos anos 50 que buscavam uma forma de expressar sua rebeldia, entre eles, o ator James Dean e o cantor Elvis Presley. Nas décadas de 50-60, com a ascensão do Rock e a moda inspirada por esses ídolos, a moto teve sua presença elevada entre a juventude. Naquela época, no Brasil, as motos eram artigos de luxo, relacionadas a uma vida de playboy. Contudo, na década de 70, com uma novela da Globo (1973), “Cavalo de Aço”, cujos protagonistas eram Tarcísio Meira e sua moto, uma Honda CB 750F, um modelo importado, ainda novidade por aqui, a febre já nascente teve grande impulsionamento, em terras tupiniquins.
Com a ascensão da moto entre os
jovens, elas a apelidaram de motoca, em contraposição a motocicleta,
considerada uma denominação antiquada, usada pela geração dos pais, e por
analogia a cocota (que veio do francês cocotte), maneira como eram chamadas as
jovens (equivalente a “mina”, hoje). Então, motoca era a gíria do momento e,
por extensão, "motoqueiros" eram os descolados condutores de motocas,
envoltos no movimento da Jovem Guarda, associando-se o termo "motociclista" à linguagem dos "coroas", "antiquados", "caretas",
que viam os jovens como arruaceiros. Daí a correlação atual de
"motoqueiro" com "arruaceiro", reservando-se "motociclista" para os "ordeiros".
Assim, os "descolados da jovem guarda" eram considerados "arruaceiros" pelos "coroas que não compreendiam seu estilo de vida". Por outro lado, os "motociclistas" eram aqueles que tinham na moto apenas um meio de transporte e não um estilo de vida (lembrando que, nas décadas de 50-70, não existia uma categoria profissional que tinha, na moto, um meio de vida, o que veio a se consagrar apenas na década de 80, do século XX). Ainda que o Incidente de Hollister tenha cunhado uma imagem negativa aos bikers, dado o mau comportamento de alguns, o que a maioria buscava, ao comparecer ao evento, e quase a totalidade dos motoqueiros da Jovem Guarda faziam, nos anos 50 a 70, antes da depreciação do termo, era se reunir para confraternizar, ouvindo Rock (música de mau grado, na visão dos "coroas") e bebendo, sem intenções marginais, violentas ou ilegais. Não é isso, justamente, o que fazemos em nossos encontros de motogrupos e motoclubes? Nesse sentido, a despeito das controvérsias dentro do cenário motoclubista e, mais amplamente, motoclístico, a palavra "motoqueiro" aparenta ser mais condizente com as origens e sentidos do motoclubismo ou de um estilo de vida biker.
Em síntese, parece ser muito mais sensato utilizarmos a diferenciação entre os termos, a partir dos usos que se faz da moto e não do comportamento do usuário, pois maus e bons comportamentos podem ser vistos em qualquer um e a definição a partir desse critério cria preconceitos, enquanto a finalidade do uso é bem melhor delimitada, ainda que o usuário possa se incluir em mais de uma categoria, independentemente da cilindrada de sua moto. Nesse sentido, fica o entendimento:
- Finalidade profissional da moto (meio de sobrevivência): motofretista (motoboy ou mototaxista)
- Finalidade utilitária da moto (meio de transporte): motociclista
- Finalidade identitária da moto (estilo de vida): motoqueiro
Para encerrar, vale mencionar uma curiosidade referente à cultura motociclística além-mar, em terras lusitanas, a qual possui algumas diferenças em relação à nossa:
- Motociclista é aquele que anda de moto (por lá, “mota”), por razões profissionais ou não, ou seja, todo mundo que cavalga um cavalo de aço.
- Motard é o motociclista que gosta de andar de moto por lazer e dos convívios e encontros.
- Mototurista é o motociclista que tem preferência por viajar de moto para conhecer novos lugares.
- Motoqueiro é o motociclista arruaceiro e contador de histórias e bravatas sobre suas aventuras e arruaças, com um código de conduta pouco ético.
Como podemos ver, coincidência ou
não, “motoqueiro” possui um sentido pejorativo semelhante ao que é, inadequadamente,
utilizado no Brasil, por motivos que desconheço. Talvez, esses motivos sejam bem parecidos
aos nossos, dada a proximidade de Portugal em relação à França, país de origem
da palavra “cocota”, como já vimos, e “motoqueiro” tenha chegado ao Brasil sob
influência de nossos irmãos lusitanos, vai-se saber...mas isso é história pra
outro post!
*Importante mencionar a influência da Guerra do Vietnã sobre o surgimento dos Outlaw Motorcycle Clubs e seus badboys bikers. Os veteranos da guerra passaram a ser, altamente, discriminados pela população americana. Isso instigou vários a aderirem a esses motoclubes, expressando a visão que a população fazia deles, ao mesmo tempo, ampliando o efetivo dos mc e fortalecendo a imagem de "maus" que seus integrantes possuíam.
domingo, 15 de março de 2015
"Fora Dilma!"...Hãã...mas por que mesmo?!
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Por que não há sentimento de legitimidade da representação política no Brasil?
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
RUÍDO NOTURNO, UM MAL DE DIFÍCIL SOLUÇÃO NA CULTURA DO BARULHO
Lembro que a legislação é clara ao determinar o grau de incomodidade (Lei 8617/2008 e art. 101 do Plano Diretor de Goiânia), especificando o nível de ruído permitido pelo estabelecimento, e exigir estudo do impacto urbano promovido (Lei 8646/2008 e arts. 94 à 97 do Plano Diretor de Goiânia), prevendo o necessário controle da poluição sonora, conforme art. 14 da Lei Complementar 171 (Plano Diretor de Goiânia), a fim de preservar a paz e a saúde humanas e evitar a degradação do meio ambiente, compatibilizando a preservação deste com o desenvolvimento econômico, social e cultural (Lei Federal 6938/81).
Sob o crivo dos princípios aqui evocados, devem estar colocados, também, os ruidos advindos de som automotivo ou residencial, cuja emissão é, igualmente, perturbadora e necessita ser coibida e reduzida a padrões aceitáveis de saúde, demandando as sansões cabíveis aos seus produtores. Não há que se falar aqui, assim como também no caso dos estabelecimentos comerciais, de repressão da cultura ou do direito subjetivo de acesso a ela, pois não existe relação nomológica entre o volume ou recorrência de ruídos e a sobrevivência de determinado elemento cultural, sendo o culto ao barulho e o desrespeito ao sossego e à paz alheios um subproduto da indústria cultural de massa. Talvez possamos, apenas, referir a baixa escolaridade e a classe social à preferência por conteúdo musical de reduzida qualidade poética e filosófica, na qual letras e melodias de fácil digestão se concentram em torno de temas com pouco ou nenhum conteúdo crítico ou reflexivo mais elaborado ou metafórico sobre o mundo. Como nos traz uma pesquisa do IBOPE (http://www.ibope.com.br/pt-br/noticias/Documents/tribos_musicais.pdf) sobre tribos musicais, o sertanejo, o pagode, o funk e o gospel dominam absolutos nas preferências das classes C, D e E, sendo as baladas noturnas e a socialização nesses ambientes a tônica na diversão desse público. Contudo, apesar da maior tolerância das classes baixas ao ruído, não podemos afirmar que o volume da música seja fator determinante em sua manutenção como elemento cultural com maior ou menor acessibilidade ou perenidade social, ou que a luta pela redução de ruidos sonoros musicais se configure como uma defesa ou privilégio a este ou àquele gênero musical.
